1° ano do Plano de Manejo Integrado do Fogo mostra resultados

1° ano do Plano de Manejo Integrado do Fogo mostra resultados

Em sintonia com os compromissos assumidos por líderes mundiais na COP30, em Belém, o Plano de Manejo Integrado do Fogo (PMIF), implementado há menos de um ano, mostra resultados expressivos na cidade de Piracaia. A iniciativa posiciona estrategicamente a cidade como um dos exemplos práticos de como o Manejo Integrado do Fogo (MIF) pode transformar territórios vulneráveis em tempos de queimadas.

Durante a Cúpula do Clima, 50 países e três organizações internacionais aderiram ao Chamado à Ação sobre Manejo Integrado do Fogo e Resiliência a Incêndios Florestais, documento liderado pelo Brasil, no qual ilustra a urgência do abandono o modelo exclusivamente reativo de combate às chamas e adotar estratégias preventivas, científicas e socialmente participativas. Em Piracaia, essa mudança já está em curso.

DO “FOGO ZERO” AO MANEJO INTEGRADO 

Neste ano, Piracaia reestruturou sua política de manejo do fogo com apoio técnico da SIMBiOSE (Associação Serra do Itapetinga Movimento pela Biodiversidade e Organização dos Setores Ecológicos) e da The Nature Conservancy (TNC) Brasil. O município, que abriga áreas suscetíveis a incêndios e importantes mananciais de abastecimento de água do Estado de São Paulo, passou a adotar o manejo integrado como estratégia de resiliência territorial.

Uma das primeiras medidas foi o aprimoramento da legislação municipal. A nova política prevê notificações prévias antes de multas, incentivando o diálogo com a comunidade. Desde maio, foram emitidas cerca de 7 notificações, incluindo um caso de reincidência na região da Represa do Cachoeira, que agora segue para processo de autuação.

Mas mais importante que a fiscalização, segundo a Prefeitura, tem sido o engajamento direto da população. Moradores participaram da construção do PMIF, de cursos de brigadistas florestais, oficinas de produção de abafadores e encontros comunitários realizados pela prefeitura, SIMBiOSE e TNC Brasil.

AÇÕES REALIZADAS EM 2025

Com a urgência imposta pelas condições climáticas e pelo histórico de incêndios na região, Piracaia colocou em prática as ações previstas no plano. Entre elas:

  • Programas de sensibilização nas escolas;
  • Mobilização de moradores de áreas rurais e zonas de risco;distribuição de materiais educativos;
  • Início da instalação de um Sistema de Monitoramento e Alerta de Incêndios Florestais;
  • Instalação de uma estação meteorológica com dados públicos;
  • Treinamentos e elaboração participativa de protocolos;
  • Início da construção de aceiros em áreas críticas.
AÇÕES PREVISTAS PARA 2026

Com os primeiros resultados positivos, Piracaia prepara agora uma nova etapa da política de manejo do fogo. Entre as ações previstas para 2026 estão:

  • Criação do Comitê Municipal de Manejo Integrado do Fogo;
  • Articulação com produtores rurais e Câmara Municipal para regulamentação de queimas prescritas e controladas;
  • Estruturação das brigadas comunitárias e contratação de novos brigadistas;
  • Oferta de formação em Sistema de Comando de Incidentes (SCI);
  • Ampliação das parcerias institucionais.

Para Fernanda Cabral, assessora de Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Piracaia, o diálogo com o setor rural será fundamental:

“A conversa com os produtores rurais é um dos focos do PMIF para o ano que vem. Precisamos entender como eles utilizam o fogo para criar uma legislação que leve em conta a cultura rural de Piracaia. Essa realidade local, somada aos conhecimentos científicos, é que vai possibilitar uma legislação robusta, realmente aplicável e capaz de gerar os resultados de prevenção que buscamos.”, comenta.

A OSC SIMBiOSE atua na defesa do meio ambiente e na gestão de áreas protegidas, promovendo educação ambiental, manejo integrado do fogo, soluções baseadas na natureza e governança participativa. A organização tem sido parceira central na implementação do PMIF, contribuindo com expertise técnica e metodologias de mobilização comunitária.

DESCUIDOS QUE PROVOCAM INCÊNDIOS 

Apesar dos avanços obtidos com o Plano de Manejo Integrado do Fogo, o alerta é que a maior parte dos incêndios florestais em Piracaia ainda é resultado de ações humanas evitáveis. Atitudes como queimar lixo, soltar balões, descartar bitucas de cigarro em áreas secas, acender fogueiras sem controle ou realizar queimadas agrícolas sem autorização estão entre as principais causas do fogo descontrolado não só em Piracaia, mas também em outras cidades da região com focos de incêndio constantes.

Pequenos mamíferos, aves, répteis, insetos polinizadores e espécies ameaçadas podem desaparecer de áreas inteiras após um único episódio. Além disso, munícipes também sofrem as consequências – econômicas e pessoais. Dentre as consequências mais graves, segundo site do Governo Federal, estão:

Problemas respiratórios: A inalação da fumaça de incêndios florestais, que contém partículas finas (MP 2.5) e grossas (MP 10), monóxido de carbono e outros gases tóxicos, pode causar irritação nos olhos e nas vias respiratórias, exacerbando sinais e sintomas em indivíduos com asma, bronquite e outras doenças pulmonares;

Efeitos cardiovasculares: A exposição à fumaça, partículas inaláveis e gases tóxicos pode aumentar o risco de condições cardiovasculares, tais como infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral, especialmente em indivíduos com doenças preexistentes.

Saúde mental: O trauma de viver em áreas afetadas por incêndios florestais, combinado com a perda de lares e meios de subsistência, pode levar a problemas de saúde mental, como estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

Deslocamento populacional: Comunidades inteiras podem ser forçadas a evacuar suas casas, resultando em deslocamento e sobrecarga dos sistemas de saúde em áreas para onde essas populações se dirigem.

BRIGADISTAS

A reportagem do Em Pauta conversou também com Dani Fujiwara, que é uma das brigadistas da SIMBiOSE. “Se não o primeiro, é um dos primeiros municípios do Brasil a ter um plano de manejo integrado do fogo. É recente em termos de políticas públicas. É uma grande conquista”, comemorou.

“Considerando as características do território de Piracaia e de outros municípios do Sistema Cantareira, é a relação com a comunidade e os produtores rurais, essa mudança de paradigma e como a gente encara o fogo. Consideramos os aspectos culturais do manejo do fogo, então pensamos em prevenção. Trabalhamos com a lógica da punição — então a gente vai punir os produtores rurais que utilizam o fogo para queimadas, que são diferentes de incêndio. Queimada é o fogo controlado, usado para vegetação, e muitos produtores rurais sabem fazer esse tipo de manejo, então não queremos proibir [os produtores] de usarem o fogo, até porque ele não é sempre ruim”, explicou.

CONSCIENTIZAÇÃO

Para Dani Fujiwara, tanto a fauna quanto a flora sofrem com os prejuízos provocados quando o incêndio atinge áreas naturais, mas também prejudica-se a produção de água, a saúde da população e até mesmo há prejuízos financeiros. “Quando trabalhamos com a lógica da contingência, investindo apenas em combates, são custos muito mais altos do que investir em prevenção. Em tempos de mudanças climáticas, o plano de manejo do fogo chega como uma abordagem que busca resiliência e adaptação a essas mudanças. Temos períodos de estiagem cada vez mais prolongados, o clima está mais seco e as variações estão drásticas. A urgência de se olhar para esse cenário é muito importante, pensando em consequências para toda a sociobiodiversidade”, concluiu.

 

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