Atleta do Red Bull Bragantino dispara declarações machistas

Após ser eliminado do Campeonato Paulista na noite deste sábado (21), o zagueiro do Red Bull Bragantino, Gustavo Marques, disparou uma série de falas machistas contra a árbitra da partida.
A árbitra Daiane Muniz apitou o jogo. Ela integra o quadro da FIFA (Federação Internacional de Futebol) desde 2025.
DECLARAÇÕES MACHISTAS
Em entrevista à TNT Sports, emissora que detém os direitos de transmissão do campeonato, o zagueiro, que chegou a Bragança Paulista em julho do ano passado, afirmou: “Primeiramente eu quero falar da arbitragem, porque não adianta a gente jogar contra São Paulo, Palmeiras, Corinthians e eles colocarem uma mulher para apitar um jogo desse tamanho”.
Na sequência, completou: “Eu acho que ela não foi honesta pelo que ela fez. Eu acho que o São Paulo, com todo mérito, pela camisa e pela tradição que tem, eu acho que ela ‘puxou’ pra eles porque independente da situação o Red Bull é grande, mas pra ela o São Paulo foi maior. Então eu acho que esse jogo é critério dela, porque ela não foi mulher”.
“A gente trabalha todo dia, deixa a família em casa… pra ela vir acabar com um sonho. Era um sonho chegar na semi e até na final. Mas ela acabou com nosso jogo. Eu acho que a Federação Paulista tem que olhar para os jogos desse tamanho e não colocar uma mulher, com todo respeito às mulheres do mundo. Eu sou casado, eu tenho minha mãe, desculpe se estou fazendo alguma coisa para as mulheres, mas ela eu acho que não tem capacidade de apitar um jogo desse”, disse Gustavo Marques.
PEDIDO DE DESCULPAS
Após a grande repercussão nacional de suas falas, o atleta pediu desculpas em uma declaração à imprensa, ainda no Estádio Cícero de Souza Marques.
“Estou aqui para pedir perdão a todas as mulheres do mundo e do Brasil. Eu falei coisas que não deveria para a Daiane. Fui até o vestiário dela, pedi perdão a ela e à assistente dela. Quero que possa me perdoar pela minha fala. Estou mal, estou triste, minha esposa já me xingou, minha mãe já me xingou. Estou pedindo perdão, estou sendo homem, estou sendo ser humano, e todo ser humano erra. Estou aqui para pedir perdão a todas as mulheres”, afirmou.
VAGNER MANCINI SE POSICIONA
O treinador do Red Bull Bragantino foi questionado sobre o fato em coletiva de imprensa e respondeu: “O atleta teve a grandiosidade de ir lá e pedir desculpas, porque obviamente isso não está certo. A gente tem que respeitar essa mudança que estamos acompanhando no planeta. Não é o sexo que vai determinar a competência da pessoa. Mas ele teve a dignidade de ir lá e pedir desculpas para ela e foi à entrevista pedir desculpas ao vivo para todo mundo. Todos nós somos passíveis de erro, não temos o poder de julgar ninguém, porque todo mundo erra na vida. Ele foi infeliz na sua declaração e esperamos que todos nós aprendamos com isso”.
DIEGO CERRI
O diretor esportivo do Red Bull Bragantino, Diego Cerri, também fez questão de se posicionar sobre o tema: “A gente, de maneira nenhuma, compactua com a fala que o Gustavo teve. Conversamos com o Gustavo Marques após a partida, e ele mesmo já tinha se dado conta da besteira que falou, do erro grave que cometeu. Nos reunimos no vestiário, conversamos sobre isso e ele estava bem abalado. Saiu do jogo de cabeça quente, de uma partida truncada, e cometeu um erro grave. Reconheceu o erro e foi até o vestiário da arbitragem, pediu desculpas à Daiane e às outras mulheres que estavam no local, o que foi uma atitude digna. Que fique de exemplo para que a gente não volte a cometer atos como esse, não só no futebol, mas na vida”.
NOTA DA FEDERAÇÃO PAULISTA DE FUTEBOL
“É com profunda indignação e revolta que a Federação Paulista de Futebol recebeu a entrevista do atleta Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, após a partida contra o São Paulo, neste sábado (21), pelo Paulistão Casas Bahia.
Uma declaração em relação à árbitra Daiane Muniz que reflete uma visão primitiva, machista, preconceituosa e misógina, incompatível com os valores que regem a sociedade e o futebol. É absolutamente estarrecedor que um atleta, em qualquer circunstância, questione a capacidade de um árbitro com base em seu gênero.
A FPF tem orgulho de contar em seu quadro com 36 árbitras e assistentes e continua trabalhando ativamente para que este número cresça.
Daiane Muniz é uma árbitra FPF/CBF/FIFA da mais alta qualidade técnica, correta e de caráter. A FPF reforça todo apoio a Daiane e a todas as mulheres que atuam ou desejam atuar em qualquer área do futebol. Nosso trabalho diário é para garantir que o futebol seja um ambiente seguro e justo para todas as mulheres.
Por fim, a FPF encaminhará tais declarações à Justiça Desportiva, para que esta tome todas as providências cabíveis”.
NOTA DO RED BULL BRAGANTINO
O Red Bull Bragantino, também se manifestou de maneira institucional:
“O Red Bull Bragantino vem a público reforçar o pedido de desculpas a todas as mulheres e, principalmente, à árbitra Daiane Muniz. O clube não compactua e repudia a fala machista do zagueiro Gustavo Marques, dita após a partida.Ainda no estádio, o jogador e o diretor esportivo do clube, Diego Cerri, se dirigiram até o vestiário da arbitragem para pedir desculpas pessoalmente em nome da instituição e reconhecer o erro. Ambos também atenderam a imprensa no local.
Sabemos que o peso de uma eliminação é frustrante, mas nada justifica o que foi dito. Seja no futebol ou em qualquer meio da sociedade. O clube vai estudar nos próximos dias a punição que será aplicada ao atleta”.
NOTA DA REDAÇÃO
Em Pauta lamenta a atitude machista do atleta do Red Bull Bragantino. Dizer que uma mulher não tem capacidade de mediar um jogo importante desrespeita não apenas a árbitra em questão, mas todas as mulheres de Bragança Paulista que ocupam cargos de liderança ou não, que sustentam famílias e que vibram nas arquibancadas.
É legítimo que qualquer atleta ou clube questione decisões técnicas de um árbitro. O erro, contudo, torna-se inaceitável quando a crítica deixa de ser profissional e passa a ser um ataque à identidade de gênero.
Para ser considerado grande, como disse Gustavo Marques, o Red Bull Bragantino deve ter uma postura que vá além das quatro linhas e o atleta falhou gravemente — não com os pés, mas com as palavras.





