Infância patologizada: como o excesso de diagnósticos tem impactado a parentalidade e o desenvolvimento infantil

Infância patologizada: como o excesso de diagnósticos tem impactado a parentalidade e o desenvolvimento infantil

*Por Giovanna Galasso Pannunzio

A democratização do acesso da população a temáticas relativas à saúde mental foi um ganho proveniente de movimentos como a Luta Antimanicomial e a instauração do Sistema Único de Saúde. Durante a pandemia, enquanto nos preocupávamos sobretudo com a saúde física, passamos a refletir também sobre as consequências do isolamento sobre nosso quadro psíquico, situação que dinamizou e ampliou debates nas áreas da psicologia e psiquiatria. Todo o conhecimento produzido, observado e estudado em saúde mental é um reflexo do tempo em que vivemos e do tipo de indivíduo considerado “normal” nas respectivas circunstâncias.

É comum ao cotidiano na área da saúde a presença de termos que há menos de duas décadas eram pouco discutidos, ou ainda nem haviam sido propriamente definidos, como TEA (Transtorno do Espectro Autista), TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TOD (Transtorno Opositor Desafiador). Não cabe neste momento discutir o diagnóstico certeiro dos transtornos supracitados, aqueles que aumentam significativamente a qualidade de vida do sujeito (em sua grande maioria, criança), permitem a inserção plena na comunidade e funcionalidade na realização das atividades diárias. O objetivo aqui é observar criticamente a imposição da lógica diagnóstica sobre comportamentos inerentes à infância.

A partir do momento em que se atribui caráter de sintoma a determinados comportamentos, torna-se possível atribuir caráter de doença ao coletivo dessas ações e de doente ao sujeito que as apresenta – a chamada patologização. Crianças são agitadas. Crianças têm dificuldade em ser contrariadas. Crianças, em sua grande maioria, têm um tempo de atenção reduzido – especialmente considerando a imensa exposição às telas, a qual impacta significativamente esse domínio da conduta. Classificar tais características enquanto sintomas sem a devida análise das condições sociais, biológicas e familiares é um desserviço continuamente colocado em prática por diversos profissionais da saúde, inclusive colegas psicólogos.

Mas o que muda a partir dos diagnósticos de TDAH, TOD e TEA? Do ponto de vista da saúde pública, crianças e adolescentes inseridos no espectro autista, por exemplo, por vezes são encaminhados a centros de reabilitação gratuitos em seus respectivos municípios, com acesso a atendimentos multidisciplinares. Na área da educação, esse mesmo público tem acesso a professores de apoio nas salas de aula, para além do professor regular, de forma a auxiliar nos processos relativos à aprendizagem. Na assistência social, a família pode receber o Benefício de Prestação Continuada. Quando se pensa sobretudo na parcela da população mais vulnerável, não seriam esses dispositivos algo desejável a todos?

O intuito dos questionamentos não é associar diretamente o aumento de diagnósticos aos respectivos “ganhos secundários” do sujeito e de seus familiares, mas problematizar e propiciar reflexões acerca do que vem no pacote a partir do momento em que o indivíduo recebe esse novo rótulo. Muitas vezes o diagnóstico é recebido de forma positiva por familiares e educadores por oferecer uma explicação sobre dificuldades observáveis no cotidiano da criança, as quais podem estar relacionadas sobretudo a seu desenvolvimento e interação social. E o ponto principal é esse: para haver diagnóstico, para haver transtorno, é necessário identificar prejuízos sobre a funcionalidade do sujeito, ou seja, sobre sua capacidade de realizar atividades e participar da sociedade. Crianças tímidas e retraídas não necessariamente são autistas, mas crianças com atrasos significativos na linguagem e déficits nas habilidades sociais podem ser.

A dificuldade em realizar distinções dessa natureza tem inquietado pais e mães de todas as classes sociais, especialmente quando combinada ao amplo acesso a conteúdos sobre transtornos observáveis na infância (nem sempre provenientes de fontes confiáveis). Como resultado, além da busca por serviços voltados à avaliação e possível diagnóstico dos pequenos, esses pais por vezes deixam de realizar ações benéficas a seus filhos dada a crença de que os comportamentos observados são imutáveis e inerentes ao transtorno que apresentam. Deixam de impor limites, deixam de estabelecer combinados, deixam de sustentar regras por acreditarem que a birra, as falas grosseiras e os comportamentos desafiadores em geral são parte do transtorno. “Ele é assim porque tem TDAH!”, pronto e acabou. Ainda pior, deixam de mediar e estimular ações relativas ao processo ensino-aprendizagem por julgarem que as habilidades não serão desenvolvidas, também devido ao transtorno. A permissividade excessiva combinada à falta de estímulo tem como consequência a criação de indivíduos com pouca autonomia, dificuldades na identificação e expressividade das emoções e baixíssima tolerância à frustração. Resta imaginar como desbravarão a vida adulta.

Cabe finalizar com mais questionamentos: como seria a criança “normal”? É adequado pensarmos normalidade enquanto sinônimo de passividade, obediência indiscriminada e silêncio absoluto? É possível a formação de adultos críticos, fortalecidos e obstinados a partir dessas outras características?

Giovanna Galasso Pannunzio
Psicóloga CRP 06/193023

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