Quando a Inteligência Artificial lê, escreve e pensa por nós, o que resta?

*Por Giovanna Galasso Pannunzio
Psicóloga CRP 06/193023
É curioso pensar no quanto nossas percepções sobre o termo “Inteligência Artificial” (IA) se alteraram ao longo de pouquíssimos anos. O nome carregava um estigma digno de inúmeras obras de ficção científica e uma concepção quase lúdica de robôs ganhando consciência e se voltando contra a humanidade. Hoje em dia nos referimos ao ChatGPT como se fosse um amigo ao qual delegamos tarefas indesejadas e demoradas.
Escrever e-mails importantes, montar apresentações trabalhosas, resumir artigos científicos, revisar relatórios, organizar informações em tabelas… fazíamos tudo isso sozinhos. Se a IA pode fazer aquilo que antes nos demandava processos complexos de organização, escrita e raciocínio, o que acontece com essas habilidades quando deixamos de exercitá-las?
Para além da produção de vídeos e imagens, a IA generativa (aquela capaz de criar conteúdos novos a partir de comandos ou informações fornecidas pelo usuário) mostra-se bastante presente em atividades relacionadas à leitura e escrita. Produções textuais das mais diversas ordens são passíveis de intervenção, sejam elas comentários em postagens digitais, e-mails, relatórios, redações escolares, textos acadêmicos ou bilhetes românticos. Nesse contexto, a IA não está alterando somente o que produzimos, mas como produzimos.
O processo de escrita por si só é uma forma de pensar: ao selecionarmos e organizarmos palavras e expressões, nos debruçamos intencionalmente sobre o que queremos comunicar e o que estamos sentindo. Um texto produzido inteiramente por IA pode ser ótimo, transmitir a mensagem de forma objetiva, com vocabulário apropriado e gramática impecável, mas tende a ser totalmente impessoal. A depender do gênero textual, muito se perde, pois não reconhecemos as reais intenções e as particularidades da forma de se comunicar da pessoa que (indiretamente) escreveu.
Quando passamos a acreditar que a IA sempre encontrará as melhores palavras, deixamos de procurar as nossas próprias. No que se refere à leitura, a IA dificulta uma relação já conturbada que temos desenvolvido com textos longos. Há muito nos queixamos de “perder” tempo diante de extensas e incontáveis páginas, mas agora temos a opção de resumi-las em poucos comandos, extraindo apenas o “essencial”. E quem dita que essencial seria esse?
Além disso, o processo de leitura de uma obra nem sempre tem como objetivo somente a extração de informações. Quando se pensa em textos literários, por exemplo, a experiência da leitura é importante por demandar interpretação, reflexão e envolvimento do leitor, o qual, ao realizar tais ações, tem a oportunidade de ampliar seu vocabulário e capacidade de expressão, desenvolver pensamento crítico e lidar com ambiguidades. Mais do que isso, quando realiza a leitura ativamente, por mais custosa que seja, desenvolve uma relação singular com aquela obra e interpreta seu conteúdo de acordo com sua visão de mundo e particularidades de sua vida.
Duas pessoas podem ter interpretações diferentes ao ler um mesmo romance, mas a IA pode lhe apresentar todas antes mesmo de você se dar a chance de construir a sua própria. O resumo pode complementar a leitura e auxiliar na construção de sentidos, mas quando todos os sentidos partem desse resumo fazemos pouco caso de nossa sensibilidade e inteligência.
O intuito aqui não é demonizar tecnologias e reproduzir saudosismos de uma época “mais simples”. Os aspectos positivos da IA são inegáveis, especialmente ao considerarmos seu potencial para otimizar tarefas, democratizar o acesso a informações e ferramentas, auxiliar processos de aprendizagem e ampliar nossas possibilidades de criação. Não é necessário rejeitar a IA completamente, mas refletir sobre o lugar que desejamos que ocupe em nossas vidas, considerando os impactos sobre nossa capacidade de ponderar, interpretar, criar e – por que não? – sentir.
*Giovanna Galasso Pannunzio é psicóloga – CRP 06/193023
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