Setembro Amarelo e a necessidade de pensarmos coletivamente sobre o suicídio

Setembro Amarelo e a necessidade de pensarmos coletivamente sobre o suicídio

*Por Giovanna Galasso Pannunzio 
Psicóloga CRP 06/193023

No mês de setembro tem sido costumeiro abordarmos um tema que, em todos os outros, temos receio em discutir: o suicídio. Visto como tabu em muitas culturas e religiões, o ato de tirar a própria vida parece inconcebível a alguns, mas acaba sendo colocado em prática por tantos outros.

Não só na nossa cidade como em muitos locais mundo afora, o suicídio aparece como ato final em uma cadeia de eventos, experiências, relações e sentimentos cuja intervenção, em qualquer um de seus pontos, acreditamos poder ter salvo o suicida. Mas será que uma intervenção pontual, uma palavra amiga, um abraço, teria todo esse poder?

Por que tendemos a procurar um único culpado ou salvador, um único ato de bondade que teria feito a diferença?

A prevenção ao suicídio e demais demandas da ordem da saúde mental não deve ser responsabilidade exclusiva de familiares, amigos e pessoas próximas. É possível amar profundamente alguém e mesmo assim não identificar a dimensão de seu sofrimento, ou identificar e mesmo assim não ser capaz de oferecer o suporte necessário.

A fantasia de que um indivíduo ou pequeno grupo tenha o poder de salvar uma vida é cruel e deposita um peso significativo sobre os ombros daqueles que ficam.

Prevenir o adoecimento mental é uma tarefa coletiva que só pode ser colocada em prática a partir do momento em que buscamos compreender quais elementos de nosso cotidiano enquanto sociedade – e não indivíduos – são causadores de sofrimento.

Pensar em saúde mental é pensar em relações de trabalho, expectativas sociais, construção de vínculos e diversos outros aspectos da realidade concreta do sujeito, a qual é construída ao longo de todo o seu desenvolvimento e mediada pela cultura. A ideação suicida não surge espontaneamente, de forma isolada, no cérebro da pessoa. Ela é resultado da atuação de fatores externos e internos sobre o psiquismo.

Alguns dados podem enriquecer essa discussão: de acordo com o Ministério da Saúde, o Brasil registrou 15.507 mortes por suicídio em 2021 – 12.072 homens e 3.431 mulheres (em quatro registros, o sexo foi ignorado). Embora as mulheres apresentem maiores prevalências de ideação, planejamento e tentativas de suicídio, os homens apresentam um risco de duas a quatro vezes maior de concretizar o ato.

Entre homens, questões relacionadas ao trabalho e à renda são aspectos culturais importantes para a determinação do suicídio, com maiores riscos relacionados ao desemprego e às dificuldades financeiras. Em homens idosos, a aposentadoria desempenha um efeito importante no aumento do risco de suicídio, estando relacionada à redução da renda e à quebra de papéis rígidos de gênero socialmente estabelecidos de provimento do lar.

Em relação aos jovens, o mesmo texto do Ministério da Saúde indica que, em 2021, foram registrados 1.075 suicídios entre adolescentes de 15 a 19 anos: 733 homens e 342 mulheres. Enquanto para os adultos a expectativa é de emancipação financeira, autonomia e realização pessoal, entre os adolescentes a pressão diz respeito à sensação de pertencimento, construção da identidade, corresponder às expectativas familiares, ter o corpo ideal, uma sexualidade aceita, desempenho escolar, perspectivas de futuro e uma identidade reconhecida.

A adolescência é uma fase em que a pergunta “quem sou eu?” convive com outra, igualmente poderosa: “eu tenho lugar entre os outros?” . Para além de considerações socioculturais como gênero e faixa etária, a prevenção demanda também o exercício de uma conexão verdadeira com aqueles que nos cercam: uma conexão que dá lugar a vulnerabilidades, angústias e à possibilidade de não atingirmos o ideal que nos foi imposto.

Prevenir também é produzir condições para que as pessoas tenham onde existir, falar, sofrer, pedir ajuda e pertencer antes que o sofrimento chegue ao limite.

FONTE: BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021. Boletim Epidemiológico, Brasília, DF, v. 55, n. 4, 6 fev. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/e dicoes/2024/boletim-epidemiologico-volume-55-no-04.pdf/view

*Giovanna Galasso Pannunzio é psicóloga – CRP 06/193023


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