Vanessa Nogueira: entre a urna, a tribuna e o sertão que mora aqui

Vanessa Nogueira: entre a urna, a tribuna e o sertão que mora aqui
*Por Vanessa Nogueira

Olá, queridos leitores e queridas leitoras do Bragança em Pauta! E aí, como foi a semana de vocês? A minha chegou com aquela sensação estranha de quem terminou uma longa viagem e ainda está organizando a mala: outubro se despede, a cidade volta ao ritmo normal e nós ficamos com a pergunta que sempre sobra depois da poeira baixar — e agora, o que a gente faz com isso?

A urna falou. Agora começa o trabalho de verdade

A eleição acabou. O país já sabe quem governa, e Bragança tem seu próprio retrato desse resultado: o levantamento local mostra que o presidente reeleito cresceu 7,87 pontos percentuais no município em relação ao pleito anterior. Um dado que merece mais reflexão do que comemoração.

Porque o momento mais perigoso de uma democracia não é o da votação — é o dia seguinte. É quando o vencedor festeja, o derrotado lambe a ferida e o eleitor, aquele mesmo que fez fila com chuva e sol, volta a pagar boleto e esquece que o voto é um cheque em branco com data de vencimento.

Venceu quem venceu; a partir de agora, quem cobra é a gente. E cobrar não é torcer contra: é comparar promessa com orçamento, discurso com portaria, palanque com planilha.

Política não é torcida organizada — e continuo repetindo isso porque a cada eleição a arquibancada fica mais cheia e o plenário, mais vazio.

A tribuna desta terça

Hoje, às 13h30 a Câmara Municipal realiza sessões extraordinárias e em seguida a 39ª Sessão Ordinária do ano. E vale registrar o tamanho do que passou por aquela Casa nas últimas semanas: o projeto que institui o Dia do Evangélico, o Programa Espaço Lilás, as diretrizes para a política de saúde bucal reconstrutiva e reabilitação bucomaxilofacial, a política municipal sobre álcool, o projeto de descontos em multas e juros — sem falar na LOA 2027, debatida em audiências públicas.

É muita coisa ao mesmo tempo. E aí está o ponto que me incomoda: o fim de ano é sempre a estação em que a Câmara vira uma linha de produção. Vota-se rápido, vota-se em bloco, vota-se o que decide o ano inteiro da cidade em sessões que o cidadão comum não acompanha. O Orçamento é o documento mais político que existe — é onde a cidade diz, em números, quem ela decide cuidar — e ele passa em audiência com meia dúzia de cadeiras ocupadas.

Também não me passa despercebido o calendário de solenidades: Educador Nota 10, Medalha Gustavo Simonato, entrega de Cartão de Prata. Homenagem é justa e faz bem à alma de uma comunidade. Mas o calendário de condecorações não pode competir em volume com o calendário de decisões. Uma cidade se constrói menos com palco e mais com pauta.

Onde estão as mulheres — segundo capítulo

Em julho, perguntei nesta coluna onde estavam as mulheres no tabuleiro político da região. A resposta chegou, mas não pelas urnas: chegou pela tribuna. A Câmara aprovou o Espaço Lilás, o município celebrou os 20 anos da Lei Maria da Penha com o Agosto Lilás e o projeto Banco Vermelho, e o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher foi encaminhado à própria Câmara.

A cidade avança na rede de acolhimento enquanto o Legislativo estadual da nossa região segue praticamente sem nomes femininos na representação. Uma mulher que precisa de medida protetiva encontra hoje uma estrutura; uma mulher que quer decidir o futuro da cidade ainda encontra um corredor estreito.

E há um dado antropológico incômodo nisso: o cuidado foi historicamente delegado às mulheres e só se transforma em política pública quando elas ocupam a cadeira onde se decide o orçamento do cuidado.

O sertão que mora aqui

Entre 30 de outubro e 1º de novembro, Bragança realiza o 7º Festival Nordestino, no Parque de Exposições Dr. Fernando Costa, o Posto de Monta, de entrada gratuita — evento criado em 2018 e já incorporado ao calendário oficial. Música, gastronomia, artesanato. Bonito, necessário, e insuficiente se lido apenas como festa.

Porque há aqui um fenômeno que merece a escuta de quem estuda a cultura, não o olhar de quem apenas organiza um evento. Bragança dedica um fim de semana a celebrar o Nordeste enquanto convive, todos os dias, com o Nordeste que mora aqui. Esta é uma cidade construída por encontros: o caipira do Circuito das Águas, que Antonio Candido descreveu em Os Parceiros do Rio Bonito como aquele que vive do que planta e do que troca; e o retirante que Darcy Ribeiro colocou no centro da formação do povo brasileiro, esse sujeito que atravessa o país carregando a casa nas costas. A cultura brasileira não nasceu de pureza, nasceu de mistura — e uma cidade que reconhece isso não está fazendo folclore, está fazendo autobiografia.

A pergunta crítica é simples: quantos nordestinos estão na organização do festival, na curadoria, na economia que ele movimenta? Celebração que não vira protagonismo é vitrine. E vitrine, como a gente sabe, não aquece casa de ninguém.

Hoje também acontece a reunião do Conselho Municipal de Política Cultural — instância que decide prioridades e que quase ninguém acompanha, apesar de estar aberta. O Festival Nordestino começa sexta. A Feira Noturna segue com programação musical ao longo de outubro. E vale comemorar o resultado das nossas fanfarras e bandas, que se destacaram no Campeonato Estadual e garantiram vaga na etapa nacional — talento que nasce em escola pública e merece orçamento, não só aplauso.

Saúde, onde os números merece ser lido duas vezes:

O Mutirão da Saúde atendeu mais de 10 mil pessoas na primeira quinzena do mês, com quase 15 mil agendamentos. É conquista da gestão e, ao mesmo tempo, é diagnóstico. Quando 10 mil pessoas precisam de um mutirão, o problema não é a fila do mutirão — é a porta de entrada do posto no dia comum.

Turismo para viajar e respirar: Goiás

A dica desta semana é um estado que parece um país dentro do país. Separei dois roteiros, porque são viagens diferentes.
O primeiro é a Cidade de Goiás, a antiga Vila Boa, primeira capital do estado e Patrimônio Mundial da UNESCO desde 2001. Ruas de pedra, casarios coloniais e a casa de Cora Coralina, a poetisa que começou a publicar aos 76 anos e virou prova de que nunca é tarde. A cidade repete uma frase dela que serve de bússola: o que vale na vida não é o ponto de partida, e sim a caminhada. Dá para ir de carro a partir de Brasília — cerca de 300 km, com estrada razoável.

O segundo é a Chapada dos Veadeiros. Voe para Brasília — pouco menos de uma hora e quarenta de Guarulhos — e siga para Alto Paraíso de Goiás, cerca de 230 km, umas três horas de estrada. De lá, o distrito de São Jorge vira base: Vale da Lua, Cachoeira de Santa Bárbara, Rio Preto. Confirme antes se o atrativo exige guia ou autorização, leve dinheiro em espécie (muita pousada e restaurante pequeno não opera cartão), reserve transfer com antecedência e respeite o Cerrado — a savana mais biodiversa do planeta não é cenário, é sistema vivo.
A melhor época é a seca, de maio a setembro: céu limpo, trilha firme, noite estrelada de doer. Na chuva fica lindo e impraticável.

Uma excelente semana a todos, com muita saúde, consciência e arte. Que a gente consiga trocar a arquibancada pela cadeira do plenário — e o folclore pela autobiografia.

Nos encontramos na próxima coluna!

Vanessa Nogueira

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*Vanessa Nogueira é  Bacharel em Turismo, consultora, docente, assessora regional e sua parceira na construção de uma Bragança melhor!

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