EXCLUSIVO: Prefeitura orienta uso de medicamento sem comprovação científica contra COVID-19

O Jornal Em Pauta teve acesso nesta semana, a um documento interno da Secretaria de Saúde da Prefeitura de Bragança Paulista, que trata sobre uma orientação para que médicos das Unidades de Atenção Primária, prescrevam aos pacientes o uso de medicamento Invermectina. Medicamento este, que não possui comprovação científica de eficácia no tratamento da COVID-19, segundo entidades médicas e médicos infectologistas ouvidos pela reportagem.

“O município coloca à disposição dos munícipes o medicamento Ivermectina para tratamento profilático. Em circunstância especial esse medicamento tem potencial de PREVENIR infecções por SARS-Cov-2”, diz trecho da introdução do documento de 15 de janeiro, assinado pela secretária municipal de Saúde, Marina de Fátima Oliveira, pelo médico clínico e nefrologista, Dr. Antonio Ricardo de Carvalho e pela médica ginecologista e obstetra, Dra. Roberta Bento Gonçalves.

Antonio Ricardo é diretor técnico das UPAs de Bragança e Roberta Bento, coordenadora médica da Atenção Básica. Não há nenhuma menção ou assinatura da Divisão de Vigilância Sanitária e da Divisão de Vigilância Epidemiológica e Controle de Doenças no documento.

O QUE É IVERMECTINA?

Trata-se de um medicamento que faz parte do grupo dos antiparasitários com ação em vários vermes e parasitas. Só pode ser comercializado sob prescrição médica e é utilizado em infecções como estrongiloidíase intestinal, oncocercose, elefantíase, lombriga, sarna e piolhos.

CONSELHO REGIONAL DE MEDICINA

No último dia 20, o CREMESP (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) emitiu uma nota, sobre esta questão.

“O CREMESP alerta a comunidade médica sobre a prescrição dos medicamentos pertencentes ao chamado ‘Tratamento Precoce para COVID-19’, reforçando que diretores clínicos, responsáveis técnicos e demais gestores não podem obrigar o médico a prescrevê-los. O Conselho também reforça a todos os médicos a necessidade de cautela para a prescrição desse e de outros tratamentos sem evidências científicas que comprovem sua eficácia, de forma a seguir o princípio bioético da não-maleficência”, diz trecho da nota, que pode ser conferida na íntegra em: http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=5741

SOCIEDADE BRASILEIRA DE INFECTOLOGIA

Além de checar a veracidade do documento, o Em Pauta perguntou à Secretaria de Saúde quem seria o médico infectologista responsável pela orientação ao uso do medicamento. A Prefeitura não respondeu à esta pergunta específica e esclareceu que a prescrição é feita pelo médico que realiza o atendimento do paciente.

Para a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), “as melhores evidências científicas demonstram que nenhuma medicação tem eficácia na prevenção ou no ‘Tratamento Precoce’ para a COVID-19 até o presente momento. Pesquisas clínicas com medicações antigas indicadas para outras doenças e novos medicamentos estão em pesquisa. Atualmente, as principais sociedades médicas e organismos internacionais de saúde pública não recomendam o tratamento preventivo ou precoce com medicamentos, incluindo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), entidade reguladora vinculada ao Ministério da Saúde do Brasil”.

O informativo completo da Associação Médica Brasileira (AMB) em conjunto com a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) pode ser lido em: https://infectologia.org.br/2021/01/19/informativo-conjunto-da-amb-e-sbi-sobre-vacinacao-e-tratamento-farmacologico-preventivo-da-covid-19/

OUTRO TRECHO

No documento da Secretaria Municipal de Saúde, diz ainda que: “artigos publicados, bem como a experiência prática em outros municípios ganham importante relevância para a definição de condutas essenciais”. Mesmo assim, para receber o medicamento, o paciente deverá assinar um Termo de Consentimento, que o Em Pauta também teve acesso. E em seu último parágrafo, consta: “Compreendi, portanto, que não existe garantia de resultados para evitar a infecção da COVID-19”.

INFECTOLOGISTAS E INTENSIVISTA FALAM

A reportagem do Em Pauta, conversou com dois médicos infectologistas sobre o tema.

Dr. José Ribamar Borges Mendes, médico infectologista da USF (Universidade São Francisco), afirma que “não há nenhuma evidência científica, que sustente o uso da Ivermectina para o tratamento da COVID-19 em qualquer fase da doença”.

“Ivermectina não é indicada nem como tratamento preventivo, nem como curativo para COVID-19. O Conselho Regional de Medicina e a Sociedade Brasileira de Infectologia emitiram documento público expressando essa posição, baseada na evidência científica atual”, ressalta, o infectologista.

Além da Ivermectina, Dr. Mendes ressalta que outros medicamentos são sugeridos para tratamento da COVID-19 e também não tem comprovação, seja profilático, preventivo ou curativo: Hidroxicocloroquina, Cloroquina e Azitromicina. “Nenhum deles funciona na COVID-19, infelizmente. O uso dessas medicações, para infecção do novo coronavírus é uma falácia e não deve ser empregada, porque há farta evidência na literatura científica, de risco de efeitos adversos graves”, diz.

O médico, faz um alerta à população: “o uso destes medicamentos, na COVID-19 é inútil. É absurdo, é inaceitável que a Secretaria de Saúde elabore um documento com o uso da Ivermectina para tratamento da COVID-19. É sustentar uma falácia, uma ilusão, que pode trazer gravíssimas consequências para as pessoas infectadas”, disse.

Dra. Keilla Freitas, infectologista do Hospital Sírio Libanês e diretora da clínica Regenerati, reforça a ineficácia deste e outros medicamentos.

“Não existe comprovação científica alguma que remédios como Cloroquina, Ivermectina ou similares sejam úteis como tratamento preventivo ao novo coronavírus. Na verdade, eles podem até ser prejudiciais e gerar efeitos colaterais como taquicardia, por exemplo. O método mais eficaz de prevenção é adotar as medidas impostas pela OMS, como isolamento social, uso de máscaras e higienização das mãos”, contou.

Para a médica cardiologista Dra. Nicolle Queiroz, membro do Corpo Clínico dos Hospitais Albert Einstein e Hospital São Luiz, intensivista na UTI dos Hospitais São Camilo e São Luiz, ainda “não temos dados consistentes, dizendo que há uma prevenção no agravamento da COVID-19. Neste momento, não temos embasamento científico para iniciar uso precoce da Ivermectina. Nossa única certeza é o uso da máscara, distanciamento social e sair de casa somente quando precisar”.

APLICATIVO DO MINISTÉRIO DA SAÚDE

Nesta semana, o Ministério da Saúde retirou do ar o aplicativo chamado “TrateCOV”, que recomendava o “Tratamento Precoce” para COVID-19.

Voltado a profissionais de saúde, o aplicativo, assim como a Secretaria de Saúde de Bragança, indicava o uso de medicamentos que, segundo demonstraram diferentes estudos, não funcionam contra a doença.

Desde o início da pandemia, a Prefeitura de Bragança Paulista comprou 9.000 comprimidos de Ivermectina. Segundo a Secretaria de Comunicação, 3.000 deles ainda não foram entregues e a compra teve o valor de R$ 5.059,00.

O medicamento faz parte da REMUME – Relação Municipal de Medicamentos, pois é usado “há muito tempo”.

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