Coluna da Vanessa Nogueira: o homem que sabia o caminho até cada porta

*Por Vanessa Nogueira
Olá, minhas queridas e meus queridos leitores do Jornal Em Pauta! Como foi a semana de vocês? A minha começou com uma notícia que a gente nunca está pronto para receber. E, quando é assim, a coluna muda de tom. Não porque eu queira, mas porque a cidade muda de tom. Bragança amanheceu mais silenciosa nesta terça-feira (3).
Anizinho: o homem que sabia o caminho até cada porta
Morreu Aniz Abib Júnior, o Anizinho, aos 73 anos, no Complexo Hospitalar Santa Casa. Natural de Vargem, escolheu Bragança para viver — há cerca de 35 anos. Aqui criou família, construiu carreira e virou, para muita gente, sinônimo de uma coisa simples e cada vez mais rara: presença.
Anizinho foi secretário de Serviços, de Mobilidade Urbana, de Obras e de Agronegócios. Foi assessor na Alesp. Foi o aliado de confiança de Jesus Chedid por décadas. Mas o currículo dele não cabe num cargo. Cabe em outra coisa: na Festa do Peão, na Exposição Agropecuária, no Carnaval, nas dezenas de romarias que ele ajudou a coordenar. Cabe na logística invisível que faz um evento acontecer — o gerador que não pode falhar, a autorização que precisa sair, o caminhão que precisa entrar antes das seis da manhã.
Em 2017 recebeu o título de Cidadão Bragantino. Também recebeu a Medalha Constitucionalista e a Medalha de Mérito do Serviço de Bombeiros. Honrarias que dizem pouco a quem não é da área e muito a quem entende o que é servir sem palco.
A trajetória de Anizinho é também a fotografia de um jeito de fazer política que Bragança conhece bem: o homem de confiança, o articulador de bastidores, o nome que circula nos corredores e nas festas. Esse modelo tem virtudes — lealdade, memória institucional, capacidade de resolver — e tem limites, que a cidade vem discutindo há anos.
O que fica, para além de qualquer leitura política, é o afeto de quem conviveu com ele. É o orgulho que ele demonstrava da relação com Jesus Chedid. É a última aparição pública, no programa Governo Social, na Estiva do Agudo. Um homem que voltou para a terra quando a vida pública já não pedia tanto dele.
À família enlutada, o abraço desta coluna. E a Bragança, o convite para fazer o que a gente faz bem quando quer: lembrar com respeito.
A cidade também fala — e nem sempre no tom que a gente queria
Na madrugada do domingo (1º), o Lago do Taboão virou palco de um “fluxo” na Avenida Alpheu Grimello: som alto, motos empinadas, direção na contramão, barulho que atravessou o Taboão, o Jardim São José, o Jardim do Sul e o Jardim Nova Bragança. Moradores relataram ausência de forças de segurança no local.
A resposta veio rápido. Entre 22h de domingo e 4h30 de segunda, a operação “Noite Tranquila” registrou 14 autuações de trânsito, recolheu veículos e fechou cinco estabelecimentos sem autorização para funcionar de madrugada — dois na região do Lago e três na Rua Teixeira.
Só que aqui está o ponto que me incomoda. Em 10 de outubro, a mesma operação, na mesma avenida, já havia feito 25 autuações. Vinte e três dias depois, o problema voltou. Fiscalização que funciona como resposta a crise não é política pública — é plantão. Bragança tem Lei do Silêncio desde 2009, a Lei nº 4.049, de autoria do ex-vereador Marcus Valle. Tem norma. O que falta é constância. E constância não se resolve com uma madrugada de operação, se resolve com presença, calendário e continuidade. Talvez a falta de efetivo também pode ser um alerta grave.
Corpo e Memória: a capoeira que cuida de quem envelhece
Agora a parte que me faz voltar a acreditar na semana. Entre 14 e 20 de novembro — semana da Consciência Negra e semana da Capoeira — Bragança recebe o do projeto Corpo e Memória: Capoterapia e Ritmos Afro-brasileiros para a Melhor Idade, do contramestre Rui José Santos da Silva, o Contramestre Rui, capoeirista com trajetória consolidada na preservação das tradições afro-brasileiras na cidade e na região.
O projeto é uma ação de salvaguarda e difusão da cultura tradicional afro-brasileira centrada na Capoeira e em suas manifestações correlatas — Maculelê e Jongo. O eixo é a Capoterapia, adaptação cultural dos movimentos da capoeira para o público idoso. Na prática: encontros vivenciais, rodas de memória oral e mostra cultural de encerramento aberta à comunidade, com circulação por bairros periféricos e comunidades rurais, atendimento direto de no mínimo 40 pessoas idosas e foco em mulheres, aposentados e trabalhadores informais.
A inversão que o projeto propõe. Numa sociedade que trata a pessoa idosa como quem já contou o que tinha para contar, o Corpo e Memória a coloca no lugar de guardiã de saberes ancestrais. A musicalidade, o ritmo e a corporeidade tradicional viram ferramenta de vínculo e de combate ao isolamento. E tudo isso com adaptação metodológica real: movimentos reduzidos, apoio físico, uso de cadeiras, linguagem simples, materiais com fontes ampliadas, equipe capacitada para atendimento livre de capacitismo. Acessibilidade não como item de formulário, mas como método.
A mostra acontece na semana da Consciência Negra a partir do dia 14 de Novembro no Lago do Taboão e encerra dia 20 de novembro na praça do Matadouro, com apresentações de Capoeira, Jongo e Maculêlê e integração intergeracional. É o tipo de entrega que não termina no palco: termina na roda, com gente de 8 e de 80 anos no mesmo chão. Mais informações pelo canal do Instagram @corpoememoriacapoeira
Cultura e turismo: o que ficou e o que vem
Fim de semana passado, Águas de Lindóia encerrou a primeira edição da FLALIN — Festa Literária Internacional, no Balneário Municipal, com o tema “Literatura para todas as Gerações”. Idealizada pelo editor e escritor Leonídio Balbino da Silva, homenageado da edição, a festa nasceu com uma frase que merece ser repetida: “Uma festa literária não é só cultura: é educação, é economia, é futuro.”
Fica a provocação: Bragança já tem o FLiB, que em agosto homenageou Lygia Fagundes Telles. Temos Ponto MIS, temos bienal do livro marcada para dezembro. O que ainda falta é transformar essa agenda em calendário permanente, divulgado com antecedência, com a mesma energia que a cidade dedica à Festa do Peão. Cultura não é evento: é hábito. E hábito precisa de constância — a mesma palavra que faltou no Lago do Taboão.
Encerrando a conversa
Semana estranha, essa. Começou com a morte de um amigo que ajudou a organizar as festas da cidade e termina com a cidade discutindo como se comportar na madrugada — e, no meio do caminho, um projeto que ensina que a capoeira também é cuidado. Talvez seja essa a lição: quem cuida do espaço público, cuida do sossego do vizinho e cuida da memória de quem passou por aqui está fazendo a mesma coisa. Está cuidando de gente.
Que Anizinho descanse. E que a gente aprenda, com o exemplo e com os limites dele, a fazer política e cidade com mais presença e menos ruído.
Uma excelente semana a todos, com saúde, consciência e arte.
Nos encontramos na próxima coluna!
Vanessa Nogueira
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📱 @VanessaNogueiraBP
*Vanessa Nogueira é Bacharel em Turismo, consultora, docente, assessora regional e sua parceira na construção de uma Bragança melhor!
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➡️ As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do Jornal Bragança Em Pauta.





